— COLUNISTAS/ Adriano Rossetto Junior

Jogos para aprendizagem significativa do esporte

ESCRITO EM — 10/06/2023

• 11:41 hs

COMPARTILHE:

Tradicionalmente, o ensino dos esportes coletivos ocorre de forma fragmentada, separando o ensino das habilidades esportivas, mais relacionadas aos aspectos físicos e motores do ensino dos sistemas táticos, que se baseiam, principalmente, nas habilidades cognitivas, socioemocionais e atitudinais. Separando os fundamentos esportivos dos jogos, das disputas das partidas, apartando os movimentos esportivos do seu contexto de realização, ou seja, com os deslocamentos, desmarcações, os adversários e tantos outros fatores. Uma das principais dificuldades dos professores de educação física e esportes é estruturar as aulas e os treinos, respeitando a totalidade e complexidade do ser humano. (DAÓLIO e MARQUES, 2003).

Durante muito tempo e, em alguns casos, até os dias atuais, a metodologia empregada para o ensino dos esportes limitou-se a considerar a justaposição das partes: condição física, mais técnica e mais força (BENDA e GRECO, 1998). A abordagem de ensino que preponderou baseou-se no pensamento mecanicista, no qual os procedimentos analíticos eram os mais apropriados para o processo de ensino e aprendizagem, inspirados “[…] no dualismo cartesiano e nos conceitos associacionistas, muito divulgados na Educação Física […]” (GRECO, 2001, p.52).

O processo de ensino e aprendizagem organizado de forma analítica ou fragmentada não é significativo para a maior parte dos aprendizes, porque as crianças e adolescentes não notam ou compreendem a necessidade e relevância das práticas de exercícios motores descontextualizados, oriundos da fragmentação das ações esportivas complexas, que envolvem ações coletivas, técnicas, táticas, capacidade físicas, emocionais e intelectuais, e que os alunos nunca vivenciaram, em razão do princípio de aprender o movimento para depois jogar o esporte, que ainda prevalece na educação física. Portanto, correm, chutam, arremessam, executam tantos movimentos sem saber qual sua funcionalidade e finalidade, contexto e função, isto é, sem significado, que se torna repetitivo, monótono e leva a desmotivação e desinteresse pela prática esportiva e consequente abandono (KIRK e MACPHAIL, 2002).

Benda e Greco (1998), Freire (1989), Garganta e Oliveira (1996) e Rossetto Junior et alii (2006) entendem que em razão da iniciação esportiva acontecer com crianças e adolescentes devem serem prazerosas, significativas e motivantes, para que gostem do esporte e tornem-se praticantes de esporte por toda sua vida.

Nesse sentido, buscar práticas pedagógicas e métodos que tornem o processo de ensino e aprendizagem esportiva mais significativos, prazeroso e motivantes é urgente para reverter o sedentarismo crescente e ampliar o número de crianças e adolescentes praticantes de esportes.

Ausubel, Novak e Hanesian, (1982), afirmam que um dos fatores determinantes à aprendizagem significativa e motivante é partir do conhecimento prévio do aluno, ou seja, iniciar o processo de ensino a partir do que o aluno já sabe. Os conhecimentos prévios são as bases em que o novo conhecimento se apoia, processo designado por “ancoragem”. Para Ausubel, Novak e Hanesian (1982) “o fator isolado mais importante que influencia a aprendizagem é aquilo que o aprendiz já sabe. Averigue isso e ensine-o de acordo”.

A Aprendizagem significativa caracteriza-se pela relação entre a informação (nova) e os aspectos relevantes (específico) na estrutura cognitiva, afetiva e ou motora do sujeito aprendiz. Aprende-se de forma significativa, quando se relaciona a nova informação (desconhecido) a outras ideias, conceitos ou conhecimentos relevantes e inclusivos, claros e disponíveis ao indivíduo, que funcionam como bases da aprendizagem (ancoragem).

A criança quando inicia no processo de aprendizagem esportiva traz como conhecimento prévio os jogos e brincadeiras vivenciados, que representam a manifestação de suas habilidades e competências (cognitivas, afetivas, emocionais e motoras), que se tornam o ponto de apoio para a ancoragem de novas informações e conhecimentos, como as habilidades, regras e táticas mais complexas do esporte. Dessa forma, a aprendizagem esportiva, para ser significativa, tem como ponto de partida os jogos e brincadeiras das crianças e não exercícios fragmentados e descontextualizados, sem pontos de “ancoragem”, especialmente, Para aqueles que nunca praticaram a modalidade esportiva.

Para iniciar o processo de ensino e aprendizagem de determinada modalidade esportiva, deve-se ativar os conhecimentos já internalizados, como as habilidades e competências inseridas e adquiridas nos jogos e brincadeiras infantis, para depois ampliá-las as esportivas, por meio de desequilíbrios dentro das possibilidades de resolução do aluno, não estando além ou aquém das suas capacidades, cognitivas, sócio afetivas e motoras.  Situações problemas que desconhecem a solução, mas que conseguem resolver com a integração e cooperação entre eles, com seus conhecimentos e competências e com a colaboração do educador, possibilitando o sucesso na realização e superação do desafio da tarefa, gerando motivação para novas aprendizagens.

Para Ausubel e Robinson (apud NOVAK; GOWIN, 1999) a aprendizagem que visa o desenvolvimento integral do aluno e a educação transformadora, deve ser mais significativa possível, pois é através dela que se estabelece a construção da realidade, atribuindo significado as novas informações e conhecimentos, considerando que seus conhecimentos prévios são o fator mais importante na aprendizagem.

O jogo no processo de ensino e aprendizagem esportivo constitui-se em uma relação concreta entre o aluno (conhecimentos prévios e nível de desenvolvimento), o mundo exterior (ambiente de aprendizagem – realidade das aulas), o prazer (lúdico, que desperta o interesse e motiva a criança) e o conhecimento (cultura, especificamente, cultura corporal, o esporte), consequentemente, favorecendo a aprendizagem significativa do esporte e o desenvolvimento da criança e adolescente.

REFERÊNCIAS

Ausubel, D. P; Novak, J.D. e Hanesian, H. Psicologia educacional. Tradução para o Português, Eva Nick et al, da segunda edição de Educational psychology: a cognitive view. Rio de Janeiro: Inter-americana, 1982.

BENDA, R. N.; GRECO, P. J. (orgs). Iniciação esportiva universal: da aprendizagem motora ao treinamento técnico. Belo Horizonte: UFMG, 1998. 

DAOLIO, J.; MARQUES, R.F.R. Relato de uma experiência com o ensino de futsal para crianças de 09 a 12 anos. Revista Motriz, Rio Claro, v9, n3, p169-174, set/dez, 2003.

FREIRE, J. B. Educação de corpo inteiro. Campinas, São Paulo: Scipione. 1989.

GARGANTA, J.; OLIVEIRA, J. Estratégia e táctica nos jogos desportivos colectivos. In: TAVARES, F.; OLIVEIRA, J.(orgs.). Estratégia e táctica nos jogos desportivos colectivos. Porto: FCDEF-UP, 1996. p.7-23.

GRECO, P.J. Métodos de ensino-aprendizagem-treinamento nos jogos esportivos coletivos. In: GARCIA, E.S.; LEMOS, K.L.M. (Orgs.). Temas atuais em educação física e esportes. Belo Horizonte: Saúde, 2001. v.6, p.49-72.

KIRK, D.; MACPHAIL, A. Teaching games for understanding and situated learning: rethinking the Bunker-Thorpe Model. Journal of Teaching in Physical Education, Champaign, v.21, n.2, p.177-92, 2002.

NOVAK, J. D.; GOWIN, D. B. Aprender a Aprender. Tradução para o Português, de Carla Valadares, 2ª edição. Lisboa: Plátano Edições Técnicas, 1999.

ROSSETTO JUNIOR, A.J. et alii. Jogos educativos: estrutura e organização da prática. 2.ed. São Paulo: Phorte, 2006.

Adriano Rosseto Jr.
Coordenador do Instituto Esporte & Educação
Graduado em Educação Física e Pedagogia, Especialista em Educação Física escolar, Mestrado em Educação, Doutorado em Ciências Sociais
COLUNISTAS DO IEE
João Batista Freire
14 novembro, 2024
João Batista Freire
14 novembro, 2024
Adriano Rosseto Jr.
30 setembro, 2024
Adriano Rosseto Jr.
30 setembro, 2024
Celiane Oliveira
17 outubro, 2023
Celiane Oliveira
17 outubro, 2023

ÚLTIMOS ARTIGOS

João Batista Freire
14 novembro, 2024
João Batista Freire
7 junho, 2023